Ludoterapia: o que acontece quando uma criança brinca com o psicólogo?
Você já parou para observar uma criança brincando com total entrega, construindo castelos com blocos de madeira, dando voz a bonecos, desenhando mundos que só existem para ela? Para os olhos leigos, isso é apenas diversão. Para a psicologia infantil, é muito mais: é comunicação, é processo, é cura. Essa é a essência da ludoterapia.
Em um mundo que exige cada vez mais das crianças — desempenho escolar, adaptação social, regulação emocional, ansiedade na infância crescem de forma alarmante, especialmente no período pós-pandemia.
Segundo pesquisas publicadas no Jornal de Pediatria (Asbahr, 2004), os transtornos ansiosos estão entre as condições de saúde mental mais prevalentes na infância e adolescência, afetando diretamente a qualidade de vida, os relacionamentos e o desempenho escolar das crianças.
Diante desse cenário, a ludoterapia surge não como um recurso alternativo ou complementar, mas como uma abordagem terapêutica de fundamentação científica sólida, capaz de acessar o mundo interno da criança através da sua linguagem natural: ‘‘o brincar’’.
Neste artigo, vamos explorar em profundidade o que é a ludoterapia, como ela funciona na prática clínica, quais são seus fundamentos teóricos, seus princípios centrais e por que ela representa uma resposta eficaz para os desafios emocionais da infância contemporânea.
O que é ludoterapia e quais são seus fundamentos teóricos
A ludoterapia — ou play therapy, em inglês — é uma modalidade de atendimento psicológico desenvolvida especificamente para crianças, que utiliza o brincar como principal meio de expressão e elaboração dos conflitos emocionais.
Diferentemente da psicoterapia com adultos, que se apoia centralmente na linguagem verbal, a ludoterapia reconhece que a criança ainda não possui o desenvolvimento cognitivo e linguístico necessário para nomear e elaborar suas experiências de forma abstrata. O jogo, o desenho, os brinquedos e a fantasia tornam-se, portanto, os instrumentos privilegiados do processo terapêutico.
De um ponto de vista histórico, essa abordagem tem raízes na clínica psicanalítica infantil. Os primeiros registros de atendimento terapêutico a crianças remontam ao trabalho da psicanalista Hermine Hug-Hellmuth, em 1921, seguida por Melanie Klein (1923) e, posteriormente, por Virginia Axline (1947), que sistematizou a chamada Ludoterapia Não-Diretiva, inspirada na abordagem humanista de Carl Rogers.
No Brasil e no mundo, o campo continuou a se desenvolver, tendo em Garry Landreth, professor da University of North Texas e fundador do Center for Play Therapy, um dos maiores nomes contemporâneos da área.
A perspectiva humanista de Virginia Axline
Virginia Axline foi a primeira autora a sistematizar os princípios da ludoterapia dentro de uma perspectiva humanista e não diretiva.
Para ela, a ludoterapia parte de uma premissa fundamental: cada criança possui dentro de si uma força poderosa em direção à autorrealização. O papel do terapeuta não é dirigir, corrigir ou instruir, mas criar as condições de segurança, aceitação e permissividade que permitam à criança manifestar livremente quem ela é.
Axline estabeleceu oito princípios básicos que orientam o terapeuta nessa abordagem:
desenvolver um relacionamento cálido e amistoso com a criança;
aceitar a criança exatamente como ela é;
estabelecer uma atmosfera de permissividade;
identificar e refletir os sentimentos expressos pela criança;
respeitar sua capacidade de resolver seus próprios problemas;
não dirigir as ações ou conversas da criança;
reconhecer que a terapia é um processo gradativo;
e estabelecer apenas as limitações necessárias para fundamentar o trabalho na realidade.
Esses princípios não são apenas técnicas, — são atitudes que se expressam no tom de voz, na expressão facial, no gesto, na postura do terapeuta frente à criança.
Garry Landreth e a Ludoterapia Centrada na Criança
O trabalho de Garry Landreth representou uma ampliação e atualização crítica dos fundamentos de Axline.
Em seu livro seminal Play Therapy: The Art of Relationship (2002), Landreth defende que, antes de qualquer técnica, o que transforma uma criança é a qualidade do relacionamento estabelecido no setting terapêutico. O terapeuta deve demonstrar um profundo compromisso com a capacidade de crescimento, maturidade, resiliência e autodireção da criança.
Para Landreth, a percepção que a criança tem de si mesma é o fator que mais influencia seu comportamento. Cada criança carrega uma visão de mundo única, e essa visão constitui a realidade a partir da qual ela age.
A Ludoterapia Centrada na Criança trabalha justamente para ampliar essa autoimagem, ajudando-a a aprender liberdade expressiva responsável, autorrespeito, autodireção e a capacidade de buscar soluções criativas para seus problemas.
A contribuição de Winnicott: o brincar como saúde
Nenhuma reflexão sobre ludoterapia seria completa sem a contribuição do pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.
Para ele, brincar não é apenas uma atividade prazerosa da infância, — é uma expressão da saúde psíquica. “A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar: a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas.”
Nessa perspectiva, quando a criança não consegue brincar, é sinal de que algo no seu desenvolvimento emocional precisa de atenção. O trabalho do terapeuta é, então, ajudá-la a recuperar essa capacidade.
“Brincar é o meio natural de auto expressão da criança. É um caminho pelo qual ela pode se libertar de seus sentimentos e problemas.”
— Virginia Axline, Ludoterapia: A Dinâmica Interior da Criança (1947/1984)
Como a ludoterapia funciona na prática: o processo terapêutico infantil
Compreender a teoria é essencial, mas a ludoterapia ganha vida na prática clínica, no setting terapêutico, na sala cuidadosamente preparada, nos materiais escolhidos e, sobretudo, na qualidade do encontro entre terapeuta e criança.
O processo terapêutico infantil se organiza em fases distintas, cada uma com objetivos específicos que sustentam o trabalho como um todo.
As três fases do atendimento infantil
A psicoterapia infantil em uma perspectiva humanista se estrutura em três momentos fundamentais.
O primeiro é a anamnese, uma entrevista inicial realizada com os pais ou responsáveis, sem a presença da criança. Nesse espaço, o terapeuta acolhe a demanda familiar, constrói o vínculo com os cuidadores e coleta informações relevantes sobre o histórico de desenvolvimento da criança, os sintomas apresentados e o contexto familiar e escolar.
É importante que o terapeuta adote uma postura humanista, existencial e dialógica nessa fase: ele não é o “salvador da criança”, mas um facilitador do processo familiar como um todo.
O segundo momento são as sessões com a criança, onde se estabelece o núcleo do trabalho terapêutico. Nas primeiras sessões, o objetivo central é a construção do vínculo, que a criança se sinta segura o suficiente para mostrar como se coloca no mundo.
O setting terapêutico precisa comunicar claramente que aquele é “um lugar de criança”: espaçoso, iluminado, com privacidade, com materiais que estimulem a expressão criativa e emocional. Brinquedos que permitem representação de situações da vida cotidiana, materiais artísticos, objetos para expressão de agressividade e fantasia são fundamentais para que a criança consiga externalizar o que está vivenciando internamente.
A terceira fase é a entrevista devolutiva com os pais ou responsáveis, momento em que o terapeuta compartilha suas observações, aponta aspectos de funcionamento saudável e não saudável da dinâmica familiar, e orienta os cuidadores sobre como apoiar o processo em curso.
Essa fase é especialmente delicada e exige imparcialidade, sensibilidade e uma visão sistêmica que considere a criança dentro do contexto familiar e social em que está inserida.
O brincar como linguagem terapêutica
Na sala de ludoterapia, brincar nunca é apenas brincar. Cada escolha da criança — o brinquedo que seleciona, o personagem que cria, o enredo que constrói — carrega informações preciosas sobre seu mundo interno.
Violet Oaklander (1980), terapeuta gestáltica especializada em crianças, aponta que o desenho, a pintura e a fantasia são ferramentas poderosas para ajudar a criança a tomar consciência de si mesma e de sua existência no mundo.
A fantasia, em particular, merece atenção especial. Segundo Oaklander, a criança constrói mundos de fantasia porque julga seu mundo real difícil de suportar.
Essas fantasias — que podem nunca ter acontecido de fato — são absolutamente reais para ela, despertando sentimentos genuínos de medo, ansiedade e insegurança. O trabalho terapêutico consiste em trazer essas fantasias à luz, oferecendo à criança a possibilidade de ressignificá-las e, assim, reduzir seu poder sobre ela.
O brincar livre também promove o desenvolvimento da aliança terapêutica, outro elemento central em qualquer abordagem psicoterápica. Pesquisas na área (Horvath, 2001, apud Artmed) demonstram que quanto mais sólida for a qualidade do vínculo estabelecido entre terapeuta e criança, maiores são as mudanças terapêuticas observadas, independentemente da abordagem utilizada.
A liberdade de brincar reduz o medo e a resistência iniciais, cria confiança e abre espaço para que temas difíceis — medo, ansiedade, luto, conflitos familiares — possam ser abordados com mais naturalidade e profundidade
Ludoterapia e ansiedade infantil no contexto pós-pandemia
O retorno às aulas presenciais após o período de ensino remoto imposto pela pandemia de Covid-19 trouxe à tona um fenômeno que educadores e psicólogos ainda estão aprendendo a dimensionar: um número expressivo de crianças apresentando sintomas de ansiedade, inquietude, dificuldade de permanecer em sala de aula e de retomar a rotina escolar.
Comportamentos que antes eram naturais — sentar por períodos prolongados, pedir autorização para se ausentar, conviver em grupo — tornaram-se fontes de sofrimento para muitas delas.
Segundo pesquisa de Oliveira e Fernandes (2023), publicada nos Cadernos da Fucamp, crianças com ansiedade elevada diante do desconhecido tendem a apresentar crises de pânico, choro sem motivo aparente, imobilidade e busca por proteção junto a figuras de apego. Esses comportamentos, comuns no retorno às aulas, indicam um nível elevado de estresse que demanda intervenção especializada.
A análise do referencial teórico utilizado pelos autores revelou que a Ludoterapia Centrada na Criança obteve resultados positivos consistentes quando utilizada em situações de alto nível de stress — hospitalizações, luto, mudanças abruptas de rotina —, contextos análogos em termos de impacto emocional ao vivido pelas crianças no período pós-pandemia.
Ao criar um espaço seguro onde a criança pode expressar livremente o que está sentindo sem julgamento, a ludoterapia permite que ela processe gradualmente o impacto das experiências vividas, desenvolva recursos internos de enfrentamento e amplie sua capacidade de se relacionar com o mundo.
Esse processo não apenas alivia os sintomas imediatos, mas constrói as bases para uma saúde emocional mais sólida a longo prazo.
“Quando a criança gosta de participar do processo terapêutico, manipulando objetos, conversando e contando histórias, ela consegue ampliar sua linguagem e compreender com mais facilidade o mundo à sua volta.”
— Oliveira & Fernandes, Cadernos da Fucamp, 2023 (paráfrase)
Por que a ludoterapia importa para crianças em acolhimento
Para crianças que vivem em serviços de acolhimento social, essa abordagem ganha ainda mais relevância. Afastadas do ambiente familiar, muitas vezes por situações de violência, negligência ou vulnerabilidade extrema, essas crianças carregam experiências que o discurso verbal raramente consegue alcançar.
A ludoterapia ajuda a criar um ambiente seguro onde a criança pode expressar emoções, reelaborar vivências difíceis e desenvolver recursos internos para lidar com o que viveu. Para quem teve sua história marcada por rupturas e instabilidade, esse espaço de constância e acolhimento é, em si, parte do tratamento.
No Instituto Cuida de Mim, a ludoterapia integra o atendimento psicológico e psicopedagógico oferecido a crianças e adolescentes que vivem em serviços sociais de acolhimento institucional, porque entendemos que cuidar da saúde mental começa por respeitar a forma como cada criança se expressa e se conecta com o mundo.
Conclusão
A ludoterapia não é uma solução mágica, nem substitui outras intervenções necessárias como orientação familiar, parceria com a escola e, em alguns casos, avaliação psiquiátrica. Mas representa, dentro do repertório de recursos da psicologia infantil, uma das abordagens mais bem fundamentadas, mais acessíveis à criança e mais respeitosas da sua singularidade.
Brincar, afinal, não é o oposto do trabalho sério, é o modo mais sério que a criança tem de estar no mundo.
No Instituto Cuida de Mim, as atividades de atendimento psicológico, psicopedagógico e socioculturais são oferecidas com o objetivo de prevenir e tratar questões emocionais, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos e da população.
Somos uma organização sem fins lucrativos e esse trabalho é possível graças ao apoio da sociedade civil. Conheça mais sobre nossas atividades e saiba como colaborar.
