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As dificuldades de elaboração do luto diante da pandemia da COVID-19

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Nas últimas semanas, o mundo tem atravessado um trauma coletivo de enorme magnitude. São milhões de casos e milhares de mortes em virtude da COVID-19, cifras impressionantes que crescem dia após dia, sem que haja um horizonte à vista para a solução do problema.

Devido ao alto grau de contágio dessa doença, impôs-se como medida indispensável de enfretamento da pandemia o distanciamento social. As pessoas, convertidas todas em potenciais vetores de transmissão da doença, repentinamente condenadas ao isolamento. Para estancar a circulação do vírus, um remédio amargo: não há alternativa senão manter, tanto quanto possível, todos em suas casas.

Os custos emocionais e sociais de um confinamento tão radical, apesar de justificado pela epidemiologia, são significativos. Para salvar vidas e cuidar da saúde pública, de modo a assegurar que o sistema de assistência não colapse, é preciso renunciar a qualquer sociabilidade com contato físico, restando apenas a virtualização das relações afetivas, familiares e profissionais.

Essa experiência de isolamento, por si só, já tem sido fonte de angústia e sofrimento para muitas pessoas. Tanto porque há dificuldade de adaptação à nova realidade, quanto pelos mecanismos de defesa (negação) e sintomas desencadeados em uma situação desconhecida e subjetivamente custosa.

Mas tudo parece ficar mais grave diante de um cenário de iminência da morte, seja do próprio sujeito, seja dos seus entes queridos. Tem circulado uma enorme quantidade de imagens e relatos de como as pessoas mortas em decorrência dessa doença não podem ser veladas e sepultadas com todos os ritos tradicionais às mais diversas religiões e visões de mundo. Caixões lacrados, enterros esvaziados, familiares afastados: não apenas vive-se em isolamento, mas a morte também se dá em total distanciamento, dificultando a ritualização e o trabalho do luto.

O objetivo deste texto é analisar, sob a perspectiva teórica da psicanálise freudiana, as dificuldades relacionadas à simbolização e representação da ausência de pessoas cujas vidas foram ceifadas pelo Corona vírus, impedindo as formas mais usuais de despedida e de desinvestimento libidinal por parte de seus entes queridos.

Partindo dessa indefinição produzida pelo isolamento na vida e na morte em relação à ausência de uma pessoa amada, pretendo refletir de que forma é possível trabalhar essa espécie de perda objetal em circunstâncias especialmente difíceis de ser elaborada.

Isso porque, a partir do momento em que o objeto amado deixa de existir para o sujeito, o trabalho de luto passa a operar, exigindo que sejam retiradas as conexões da libido com esse mesmo objeto, outrora em posição privilegiada no campo do desejo do indivíduo.

É verdade que toda perda objetal implica um resto que não se deixa elaborar. Em outras palavras, nunca há elaboração absoluta da perda de um objeto querido, porque esta nunca pode ser plenamente consumada no processo de humanização. Isso é da própria natureza da perda. Contudo, quando a ausência é imposta de modo traumático através do isolamento forçado e de um interdito à despedida, a dificuldade de elaboração da perda assume contornos particularmente dramáticos para o sujeito.

Desse modo, atentando a essa situação peculiar, a partir dos conceitos do luto no pensamento de Sigmund Freud, será possível examinar a singularidade desse tipo de configuração afetiva. Ele afirmou que, para o leigo, o luto pela perda de algo que amamos ou admiramos parece tão natural, que ele o considera evidente por si mesmo.

No entanto, o luto é um grande enigma, um desses fenômenos aparentemente simples e que, em si mesmos, não são explicados. Daí a falta de explicação de ser este um processo tão doloroso.

Em outro texto, Freud analisa a postura cultural-convencional que o ser humano comumente adota em face da morte, no sentido de afastá-la da vida, pô-la de lado, reduzi-la a silêncio. Essa dificuldade de lidar com a finitude da existência aumenta quando se enfrenta a morte de alguém muito próximo, como “um genitor ou cônjuge, um irmão, filho ou amigo precioso”. Quando isso ocorre, enterram-se com a pessoa amada “todas as nossas esperanças, ambições, alegrias, ficamos inconsoláveis e nos recusamos a substituir aquele que perdemos. Nós nos comportamos como os asra, que morrem, quando morrem aqueles que amam“. Justamente, a perda de um ente querido reforça a tendência a excluir a morte do cálculo da vida, como se esta pudesse existir sem aquela, ao menos para os que são queridos. Por exemplo, “paralisa-nos o pensamento de quem haverá para substituir o filho para a mãe”. Isso porque “esses amores são para nós uma propriedade interior, componentes de nosso próprio Eu.

A referência teórica da Psicanálise permite uma compreensão do processo de elaboração do falecimento,  abrangendo tanto suas consequências plano individual como no coletivo. A preocupação central do discurso psicanalítico aplicado a esse tipo de situação é, em termos gerais, encontrar algum sentido para ao vazio deixado com o trauma da retirada, depois de um período já de distanciamento, de quem amamos.

A primeira dificuldade dessas mortes operadas à distância é certeza angustiante de que o ente querido, que partiu longe e isolado, bloqueia a operação tradicional do luto, eis que o investimento libidinal permanece retido nesse objeto cuja existência foi suspensa, consumindo as energias do Eu sem que o desligamento seja possível. Pois se toda ausência pode ser sentida, de início, como dor decorrente de uma perda, a morte em condições dramáticas de uma pandemia torna-se um sofrimento que não se elabora como despedida.

Como, então, elaborar o luto de uma perda assim? Em outras palavras, como elaborar uma falta, imposta de forma repentina e traumática, na forma de uma pandemia?

Nesse cenário, cujos contornos ainda são imprecisos e cujo terreno ainda estamos desbravando, a rigor, nem o luto, nem a melancolia conseguem dar conta de explicar a forma de experimentação dessa perda de um ente querido por uma pandemia tão grave. Isso porque, em geral nos casos relatados, não se desaparece apenas com vida, mas com a própria morte das pessoas amadas, que já estavam isoladas e distantes e cujos corpos não puderam ser sepultados e ritualizados. Assim, o luto iniciado não segue as características normalmente esperadas. Tampouco se trata de melancolia, pois a força da ligação com o objeto amado é tanta que não permite a desconexão e a libido não regride para o Eu, rebaixando a autoestima como é típico desse quadro patológico.

Ainda é cedo para ter respostas definitivas quanto às reações e estratégias do sujeito diante de um evento de tamanha gravidade e peso. Em que medida o sujeito encontrará clareza da consumação da perda? Como será possível a sublimação de parcela importante dessa libido desencontrada de seu objeto? A verdade é que esse caminho sublimatório será feito por cada um renovando em alguma medida os laços não rompidos com esse objeto que desapareceu em circunstâncias traumáticas. Em outros termos, a passividade da dor e do sofrimento poderá ser convertida em uma postura de acordo com os recursos individuais de cada um, que busca elaborar e dar sentido nessa forma de recuperação do sentido positivo da vida. Isso pode ser ainda mais difícil em um momento no qual falta amparo estatal, fragilizam-se os laços sociais e a crise econômica afeta a renda e a sobrevivência material de muitas famílias. Mas coisa é certa: haverá vida após a pandemia, a questão é qual vida escolheremos cultivar e (re)construir de agora em diante.

Ivone Honório Quinalha
Psicanalista – Psicóloga Clínica

Este artigo também foi publicado no blog do Instituto Sedes Sapientiae.

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